Na última semana do verão, moradores e turistas de Cáceres têm acompanhado um fenômeno natural que se repete todos os anos: o deslocamento dos chamados camalotes — ilhas formadas por plantas aquáticas — ao longo do Rio Paraguai.
Com o nível do rio acima dos 4 metros, conforme medição da Marinha do Brasil, grandes porções de vegetação se desprendem de baías, lagoas e margens, descendo em direção ao sul do Pantanal. O espetáculo tem atraído visitantes ao Cais do Porto, no Centro Histórico, onde é possível observar de perto a movimentação das ilhas verdes.
Apesar do visual que chama a atenção, o fenômeno também causa transtornos. Neste ano, parte dos camalotes foi sugada pelas bombas de captação da autarquia Águas do Pantanal, comprometendo o abastecimento de água em diversos bairros da cidade por quase uma semana.
A situação foi normalizada após uma força-tarefa envolvendo a Prefeitura, além de equipes do Exército e da Marinha, que atuaram na retirada da vegetação.
Mais do que um evento ambiental, os camalotes também carregam um importante significado histórico para a cidade. Durante a Guerra do Paraguai, a vegetação foi utilizada como estratégia de defesa pela população local.
Na época, Cáceres — então chamada Vila Maria do Paraguai — corria risco de invasão pelas tropas comandadas por Francisco Solano López. Sem efetivo militar suficiente, moradores utilizaram aguapés e outras plantas para bloquear a passagem da flotilha inimiga nas lagoas Uberaba e Gaíva, em um episódio conhecido como “Tapagem”.
A história deixou marcas até hoje. Ruas do Centro Histórico de Cáceres homenageiam batalhas e personagens do conflito, enquanto a cidade carrega o apelido de “Princesinha do Paraguai”, em referência à resistência contra a invasão.
O fenômeno dos camalotes, portanto, vai além da paisagem: ele conecta natureza, história e identidade cultural de uma das cidades mais tradicionais do oeste mato-grossense.





































